No princípio não havia princípio, pois Deus não tem princípio. Tudo o que começou começou n’Ele, mas Ele mesmo é sem começo. Antes de qualquer criatura ser, Deus era, e na eternidade de Deus não há “antes” nem “depois”, apenas o eterno Agora.
A criação não é um ato distante, perdido no tempo. É um ato contínuo. Neste exato momento, Deus cria o universo. Se Deus retirasse o seu olhar por um só instante, tudo voltaria ao nada. Assim, cada respiração tua é um testemunho de que Deus está presente, criando e sustentando.
Mas o que é Deus? Não digas “isto” ou “aquilo”. Deus não é objeto entre objetos. Deus é a Essência de todas as essências, o Ser de todo o ser. Quando nomeamos Deus, já O diminuímos. Só podemos dizer: Ele é.
E todavia, este Ser absoluto quis revelar-se. Como o sol não pode deixar de irradiar luz, assim Deus não pode deixar de gerar. O Filho nasce eternamente do Pai, e o Espírito Santo é o sopro desse Amor. Na criação, essa irradiação transborda: todas as coisas são faíscas do fogo divino.
Assim, cada pedra, cada árvore, cada alma, é um espelho onde a Essência de Deus brilha de modo único. Mas a maior maravilha é que, no mais íntimo da alma humana, há um ponto onde Deus nasce. Esse ponto não é tocado por tempo nem espaço, nem mesmo pelos anjos. Ali, a alma é uma só coisa com Deus.
Por isso digo: quem quiser conhecer a origem do universo deve regressar a este ponto interior. Pois aí, em silêncio absoluto, descobres que a tua verdadeira essência não é tua — é Deus em ti. O universo é criado fora, mas Deus é gerado dentro.
A essência de Deus não é distante nem separada. Deus é mais íntimo a ti do que tu és a ti mesmo. Se abandonares o apego às formas, às imagens e ao “eu”, encontrarás essa Essência simples e pura. E aí, no vazio da alma, brilha a plenitude: o mesmo Deus que cria o cosmos sem fim, cria-te a ti neste instante.
Cântico da Criação
No princípio era silêncio sem forma,
um vazio pleno, ventre sem tempo.
Deus falou sem palavras,
e o nada acendeu-se em luz.
Das trevas brotou o primeiro sopro,
as águas dançaram ao ritmo eterno.
Cada estrela, uma centelha,
cada vida, um reflexo do Seu ser.
A terra ergueu-se, verde e fértil,
os rios correram como veias do mundo.
E no coração da criatura humana,
Deus plantou a Sua imagem invisível.
Ainda hoje, em cada aurora,
o Génesis repete-se silencioso:
Deus cria, sustenta, renova.
E o universo canta o Nome sem fim.



